Posts de Outubro, 2007

Hipnótica emoção

Outubro 30, 2007

57 anos depois da Copa do Mundo de 1950, o Brasil é novamente oficializado como a sede de um mundial de futebol, desta vez o de 2014. Como vimos, nenhuma surpresa. Um brinde à idéia de Joseph Blatter, em parceria com Ricardo Teixeira, de fazer um rodízio de continentes a partir de 2010. Assim, para 2014, só poderiam se candidatar países da América do Sul. Como só o Brasil se candidatou, ficou fácil. O curioso é que o rodízio acaba a partir da Copa de 2018, exatamente a que vem depois da de 2014. Junte a isto o fato de Teixeira ter ajudado a eleição de Blatter para a presidência da FIFA. Estes fatos nos levariam a pensar, por exemplo, que este rodízio de continentes não passou de uma bela jogada de Ricardo Teixeira para que a Copa do Mundo viesse para cá.

Conspirações à parte, a primeira interrogação que deve vir à cabeça do leitor é: Será que o Brasil terá realmente condições de sediar uma Copa do Mundo? Ter uma competição deste porte em nosso país não seria querer demais, com uma infra-estrutura tão precária? Abrindo um pequeno parêntese, uma coisa parece certa, independente de que time a seleção brasileira tiver: O Brasil chegará como franco favorito ao título de 2014.

Os problemas de uma Copa no Brasil não se limitam apenas aos gastos astronômicos para custear as despesas(vale salientar que o dinheiro empregado é o dinheiro do povo), tampouco à falta de infra-estrutura. O problema maior, a meu ver, é psicológico. É a ilusão(seguida da desilusão) que um evento deste porte causa em nosso país. É uma alegria que contagia todos os brasileiros(inclusive os mais intelectuais). É igualmente alucinante e ilusória, porque quando a Copa acaba, volta tudo ao normal. E o normal, para o nosso país, são os inúmeros problemas de pobreza e desigualdade social. Quando chegarmos a 2014, o Brasil ainda será um país desigual e sofrido, às vésperas do mês da mágica. Quando a Copa terminar, a mágica acabará, e o Brasil ficará ainda mais sofrido e mais desigual. Utilizando um clichê já bastante desgastado, os ricos ficarão mais ricos, e os pobres ficarão mais pobres.

Nos preparemos, então, para a Copa de 2014. Será um mês de pura hipnose. O Brasil irá parar como nunca para assistir aos jogos. Até as pessoas conscientes, como eu, não resistirão a este ópio. A esta hipnótica emoção.

 

 

 

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Joseph Blatter, e o logotipo da Copa do Mundo de 2014

A era do gelo

Outubro 23, 2007

E não é que Kimi Raikkonen foi campeão? Um fato inacreditável para quem acompanhou a temporada de 2007 inteira da Fórmula 1. O finlandês, considerado o piloto mais azarado do circo, contou com uma baita sorte para tirar a diferença para Hamilton, quando haviam apenas 20 pontos em jogo. Uma zebra fenomenal, mas que evidentemente não reduz os méritos do Iceman. Ele foi o piloto que mais ganhou na temporada(6 vitórias), e o que menos errou. O título, portanto, foi merecido, apesar da sorte.

Antes do dia de ontem, Kimi só liderou o campeonato durante uma única rodada, quando ganhou em Melbourne, a primeira corrida do ano. Na corrida seguinte, na Malásia, já tomou tempo de Felipe Massa, e largou atrás do brasileiro. Este, porém, errou, e Kimi chegou na frente, em terceiro. Aí, da corrida do Bahrain até a de Indianápolis, foi um passeio de Felipe em cima de Kimi. Muitos já consideravam(inclusive eu) que Massa era o primeiro piloto, e que Kimi era a grande decepção da temporada. Tudo, porém, começou a mudar no GP da França. Na classificação, nenhuma surpresa, com Massa na pole, e Kimi em terceiro. É dada a largada, e Kimi pula para segundo. Massa então se atrapalha com os retardatários, e não consegue fazer boas voltas para voltar à frente de Kimi depois do pit stop. Melhor para o homem de gelo, que ganhou a corrida. Ao que tudo indica, esta vitória, para Kimi, teve o efeito de uma Vodka bem gostosa: Ele se animou, e a partir daí, jantou Felipe Massa durante o resto da temporada. A fatura, com seu companheiro de equipe, estava praticamente liquidada, faltando duas corridas para o fim. Faltava apenas conseguir o impossível: Tirar os 17 pontos de diferença para Hamilton nas duas corridas que faltavam. Como já dissemos, contando com competência e sorte, ele chegou lá. E a Ferrari, que caminhava para ficar sem o título de pilotos e de construtores, levou os dois. Nem precisou de punição para os pilotos da Mclaren na pontuação.

O título de Kimi coloca Felipe Massa numa situação delicada. Tudo bem que o duelo entre os dois foi equilibrado no número de pontos(apenas 16 pontos de diferença). Tudo bem que poderiam ter sido apenas 8 pontos de diferença(se não houvesse inversão de posições na França e em Interlagos). Mas para o brasileiro, 2007 era para ter sido O ano. Seria a temporada em que ele levaria vantagem técnica por conhecer melhor o carro do que Raikkonen. Em pé de igualdade técnica para o ano que vem, a diferença só tende a aumentar. A menos que Felipe melhore, e muito.

Quanto a Hamilton, só tenho a lamentar: Jogou um título ganho fora. Vai precisar de muita força para continuar andando bem na F1. Talento ele tem, e muito. Mas vai ser necessário uma cabeça muito boa.

Quanto a Alonso, esta é a derrota mais feliz de sua vida. Deve estar pensando: “Eu não ganhei, mas pelo menos ele também não ganhou”.

Ainda falta a reunião da corte para decidir se haverá a desclassificação dos pilotos que utilizaram combustível irregular em Interlagos. Se forem punidos, Hamilton pula para o 4º lugar na corrida em Interlagos e fatura o título. Acho muito difícil, porém, que tirem o título de Kimi. De qualquer forma, é bom ficar na espera. Será o desfecho da temporada mais polêmica e espetacular dos anos 2000.

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Raikkonen: Demorou, mas chegou o dia.

Do céu ao inferno

Outubro 3, 2007

Imagine que você é um piloto de F1(tente incorporar ao máximo esta fantasia à sua cabeça). Você é jovem, tem 19 anos de idade, e começa a correr. Todo mundo te considera um grande fenômeno. Imagine também que há outro piloto que ganha tudo, que aparentemente é imbatível. Aí você ganha a primeira corrida da sua vida, e se torna o mais jovem piloto da história a ganhar corridas. Mais dois anos se passam e ocorre o grande sonho: Você é campeão mundial aos 20 e poucos anos de idade e se torna o mais jovem campeão da história, tendo batido o seu rival “imbatível”. Enfrenta o seu rival mais um ano, e mais uma vez sai vencedor. O rival encerra a carreira, e a mídia te rotula como o novo cara a ser batido. Você, evidentemente, fica se sentindo o máximo.

Aí resolve sair da equipe que te fez campeão, para se aventurar em outra. Vai correr contra um piloto estreante, mais jovem que você. “Ah, ele não vai ser problemas pra mim”, você pensa.

A temporada começa. E o estreante começa a surpreender a todos, andando na sua frente. Você se desespera, porque não consegue andar no mesmo ritmo. Para piorar de vez, o moleque se torna campeão, e todas as atenções se voltam para ele. Aí, menos de 1 ano depois de você aposentar o seu rival imbatível, você vê o seu posto de primeiro piloto indo pelo ralo e o seu recorde de mais jovem campeão sendo passado a um pivete estreante que andou na sua frente, com o mesmo carro. Situação difícil essa, não é?

Pois esta história é real, e está prestes a se concretizar na madrugada de Sábado para Domingo! Se tudo ocorrer como o esperado, Lewis Hamilton se tornará o primeiro piloto da história a ser campeão em sua temporada de estréia na F1(A exceção óbvia é Nino Farina, campeão da primeira temporada de F1, em que todos os pilotos, inclusive ele, eram estreantes). E Fernando Alonso, que superou Michael Schumacher(o piloto imbatível), e (ainda) é o mais jovem campeão da história, verá o seu posto tomado pelo companheiro de equipe estreante.

Como as coisas mudam rápido na Fórmula 1…

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À direita, Alonso, o mais jovem campeão da história, o cara que há 1 ano superou Michael Schumacher. À esquerda, Hamilton, o pivete que vai tomar de Alonso o status de mais jovem campeão e que se tornará o único estreante campeão da história.