Sempre me espanto em dizer que, de hoje em diante, as meninas e os meninos que fizerem 15 anos não terão visto Ayrton Senna correr. Para estes adolescentes, o que aconteceu na curva Tamburello, no dia 1º de Maio de 1994, se refere a um fato muito remoto, antes do início de suas histórias de vida (digo isso baseado no ano em que fiz 15 anos; eu enxergava a morte de Tancredo e as “Diretas-já!” como fatos tão longínquos que pareciam pertencer a outras vidas). E ainda assim, pode perguntar a qualquer adolescente se ele sabe quem foi Ayrton Senna da Silva. Não tenha dúvidas que ele dirá que sim. No entanto, para um blogueiro prestes a completar 25 anos de idade (faltam poucas horas! =D), e para qualquer brasileiro que já tivesse seus 10 anos de idade ou mais, o dia 1º de Maio de 1994 é inesquecível.
Lembro bem que, nesse ano em particular, minha mãe havia decidido comemorar meu aniversário de 10 anos no Sábado, dia 30/04, porque o dia 02/05 iria cair numa Segunda-Feira. O condomínio onde eu morava (morei lá de 1987 até Dezembro de 1994) era muito movimentado, os meninos da minha idade ou próximos (na faixa de 8 a 13 anos) jogavam bola quase todos os dias na quadra do condomínio, que ficava em frente à varanda do meu bloco. Era uma época e tanto. Nesse dia estávamos disputando um campeonato, com camisa uniformizada e tudo, e aí, quando o jogo acabou, minha mãe foi chamar todos nós na quadra para subirmos até o meu apartamento. Lá todos cantaram parabéns para mim, enquanto eu morria de vergonha encabulado, sem saber como me comportar naquele momento. Não lembro bem se foi antes ou depois disso que eu soube do acidente do Ratzemberger, mas eu lembro que fiquei meio chocado com a cena. Nunca havia visto aquilo na vida, na minha cabeça era impossível alguém morrer pilotando um carro de corrida. E já havia tido o acidente forte do Rubinho no dia anterior. Ainda assim, não dei muita bola para aquilo, e à noite lembrei: “Amanhã tem corrida! 9 da manhã!” (nessa época eu já secava o Schumacher com todo o ardor e fogo no coração que eu tinha).
Lembro que estava assistindo a corrida de San Marino no quarto dos meus pais. Nunca esqueço da narração do Galvão naquele dia: “Senna bateu forte!”. Quando vi a cabeça de Senna arriada no cockpit, lembrei do Ratzemberger no dia anterior. Mas eu ainda não temia pelo pior. No entanto, quando eu vi a poça de sangue no chão do circuito, fiz uma pergunta que nunca vou esquecer: “Mãe, e se ele morrer?”. A resposta dela eu também nunca vou esquecer: “Filho, ele não vai morrer”. E eu realmente acreditei. Na minha cabeça, era impossível Senna morrer, ele era uma espécie de super-herói da vida real para mim. Não tenho certeza, mas acho que fomos almoçar fora nesse dia (no Natal Shopping). Tenho certeza, no entanto, que eu estava fazendo um dever de Matemática na sala, à tarde, quando ouvi o choro da minha mãe vindo do quarto dela. Quando cheguei no quarto, vi a TV ligada (tava passando umas imagens do Senna, ao som do tema da vitória numa versão mais triste), e perguntei: “Que foi?”. Meu pai respondeu: “O Ayrton Senna… morreu”. Minha mãe, chorando muito: “Filho, vá para lá!”, e fechou a porta. Voltei para fazer o dever de Matemática, mas fiquei pensando naquilo, sem acreditar: “O Senna morreu?”. Meus olhos já estavam molhados de choro, mas eu ainda não acreditava no que tinha acontecido. E ao mesmo tempo não conseguia me concentrar no dever de Matemática. Alguns minutos depois, quando a ficha foi caindo, desabei no choro. Chorei por várias horas. Acho que nunca chorei tanto na minha vida como naquele dia. Lembro que, enquanto eu chorava, peguei um boné do Senna, que eu havia ganho há poucos dias, coloquei na cabeça, fui à cozinha, e disse à minha mãe: “Nunca vou tirar esse boné da cabeça”. Fiquei algum tempo conformado com aquilo, e me tranqüilizei. Mas quando vi o Fantástico à noite, voltei a chorar. Dormi chorando, e não fui para a aula no outro dia. No dia 02/05/1994, data dos meus 10 anos de vida, acordei meio enfadado, ainda lembrando do dia anterior. Dia 3, quando fui à aula, dois colegas meus logo falaram: “A gente pensou ontem: Ah, Samuel não deve ter vindo porque ainda está abalado com a morte do Senna”. Acertaram em cheio.
Para um adolescente de 15 anos entender o que foi aquele dia, é necessário ter a consciência de não foi apenas a morte de Senna em si. Foi muito também pela maneira como aconteceu. E não foi um acidente de avião, ou uma morte por doença. Ele estava correndo, na liderança da corrida, e nós estávamos torcendo por ele. De repente, ele bate e morre, sem mais nem menos. E nós vimos ele morrer! Sinceramente, se Senna tivesse morrido de doença ou de acidente de avião, eu ficaria triste, mas com certeza não teria chorado tanto. Foi a morte de um dos maiores ídolos esportivos que o Brasil já teve, e da pior maneira possível.
E você, leitor, como foi o seu 1º de Maio? Sinta-se à vontade para dizer como foi. É só comentar! =)
